▦ Cardiologia · Aterosclerose & SCA · Material para Prova

Aterosclerose,
do mecanismo à prova.

A doença mais letal do mundo num só material: fisiopatologia, SCA, dislipidemia e tratamento — em formato socrático. Pense, pausa, abre, confirma. Foi feito para estudar nas últimas 24 h antes da prova.

17M
Mortes/ano (mundo)
100k
IAM/ano (Brasil)
90%
Risco IAM por 9 FR
<55
Meta LDL (mg/dL) em SCA
01 / Introdução

Por que importa tanto?

? Antes de qualquer aula sobre aterosclerose: qual é a principal causa de morte no mundo? E o que isso te diz sobre o que tem que estudar para a prova? PenseFechar
Antes da resposta — reflexão

Liste as 3 maiores causas de morte que você acha. A maioria das pessoas chuta câncer ou COVID. Onde entra a doença cardiovascular nesse ranking?

Resposta — o gigante esquecido

Doença cardiovascular (DCV) aterosclerótica é a principal causa de morte do planeta — >17 milhões/ano (OMS). No Brasil, doença isquêmica do coração (DIC) sozinha responde por 13% de todas as mortes em 2017 — passa câncer e violência. IAM mata ~100 mil brasileiros/ano e é a 3ª maior causa de incapacidade em adultos (DATASUS).

Para a prova, isso significa: esse é o conteúdo de maior peso de qualquer prova de clínica médica. Não dá para deixar para depois.

? O famoso estudo INTERHEART mostrou que quantos fatores de risco modificáveis explicam ~90% dos IAMs no mundo? E qual é o mais forte deles? PenseFechar
Pense antes

Liste os fatores de risco que você usaria numa anamnese de "investigação de coronariopatia". Quantos são, e qual desses tem maior odds ratio para IAM?

Resposta — 9 fatores explicam 90% da carga

O INTERHEART (Lancet 2004, n ≈ 30.000, 52 países, Yusuf, com Bodanese da PUCRS como coautor) identificou 9 fatores de risco modificáveis que, juntos, explicam ~90% do risco populacional atribuível de IAM:

FatorOdds RatioPAR (%)
Relação ApoB / ApoA1 ↑3,2549,2
Tabagismo2,8735,7
Diabetes2,379,9
Hipertensão1,9117,9
Obesidade abdominal1,6220,1
Estresse psicossocial1,6032,5
Frutas/vegetais (proteção)0,7013,7
Exercício físico (proteção)0,8612,2
Álcool em pequena dose0,916,7
Combinados129,290,4

Mensagens-chave do INTERHEART:

  1. Dislipidemia (ApoB/ApoA1) é o fator mais potente — OR 3,25. Maior que tabagismo e DM.
  2. 9 fatores cobrem 90% — a prevenção é eficaz.
  3. O risco é multiplicativo, não aditivo: combinar fatores aumenta o risco em >100×.

Os fatores de risco — uma classificação prática

Maiores
  • LDL-c elevado
  • Tabagismo
  • Diabetes mellitus tipo 2
  • Hipertensão arterial
  • História familiar de DCV (DAC, AVC, DAP) precoce
Aumentam o risco
  • Adiposidade abdominal
  • TG ↑ / HDL-c ↓
  • Lp(a) elevada
  • Fibrinogênio ↑
  • PCR-us (inflamação)
  • Sedentarismo
Emergentes
  • Ácido úrico ↑
  • Estresse psicossocial
  • Apneia do sono
  • Doenças inflamatórias (AR, lúpus, psoríase)

⚠ Atenção: idade e sexo

São fatores não-modificáveis mas determinantes do risco: homens > 55 anos e mulheres > 65 anos têm risco basal muito maior. História familiar é "precoce" se evento em parente de 1º grau homem < 55 anos ou mulher < 65 anos.

02 / Fisiopatologia

A história da placa.

? Aterosclerose é uma doença do colesterol ou da inflamação? E o que isso muda no tratamento? PenseFechar
Antes da resposta — analise

Se fosse só de colesterol, baixar LDL bastaria. Se fosse só inflamação, anti-inflamatório seria a cura. Por que nem sempre funciona assim?

Resposta — é uma doença inflamatória crônica induzida pelo colesterol

Definição moderna (Virchow 1856 + Hansson 2005): "Aterosclerose é um processo inflamatório crônico, imunomediado e sistêmico, induzido pelo colesterol".

Implicação prática enorme: o tratamento precisa atacar ambos os pilares:

  • Reduzir o substrato (LDL e outras lipoproteínas com ApoB): estatina, ezetimibe, PCSK9, inclisirana, ácido bempedóico
  • Atenuar a inflamação: estilo de vida, controle de FR, e novas evidências para colchicina em baixa dose (0,5 mg/dia) na DAC estabelecida (CANTOS, COLCOT, LoDoCo2 → redução de IAM/AVC/revascularização ~25%)

Esse é o motivo de o conceito de "placa vulnerável" superar o conceito antigo de "estenose": uma placa pequena mas inflamada pode romper e matar; uma grande mas estabilizada pode viver com o paciente para sempre.

O continuum cardiovascular (Dzau, 1989)

Toda a fisiopatologia da DCV pode ser desenhada como uma cascata que começa nos fatores de risco e termina na morte por insuficiência cardíaca ou arritmia. Quanto mais cedo você intervém, melhor.

1
Fatores de risco

HAS, LDL ↑, DM, tabagismo, HF, obesidade, Lp(a), fibrinogênio, homocisteína…

2
Disfunção endotelial

Endotélio perde capacidade vasodilatadora (↓ NO), torna-se pró-inflamatório (expressão de moléculas de adesão VCAM-1, ICAM-1, selectinas), pró-trombótico (↑ PAI-1, fator von Willebrand) e permeável a LDL.

3
Aterogênese

LDL atravessa o endotélio → oxida-se na íntima → recrutamento de monócitos → diferenciação em macrófagos → fagocitose de LDL-ox via receptor scavenger → células espumosas (foam cells) → primeira lesão visível: estrias gordurosas.

4
Placa fibrosa

Recrutamento de células musculares lisas, produção de matriz colágena → capa fibrosa sobre o core lipídico. A placa pode estabilizar-se ou continuar crescendo.

5
Placa vulnerável

Capa fibrosa fina, core lipídico grande, muitos macrófagos, poucas células musculares lisas, neovascularização frágil → predisposta à ruptura.

6
Ruptura / erosão

O conteúdo lipídico-inflamatório entra em contato com o sangue → ativa cascata de coagulação + plaquetas → trombo.

7
SCA / IAM

Trombo oclusivo → STEMI. Trombo suboclusivo → NSTEMI ou angina instável. Distalmente: isquemia miocárdica, necrose, arritmia, remodelamento ventricular, IC, morte.

? Qual a diferença entre ruptura de placa, erosão e nódulo calcificado? E qual é a mais comum no IAM? PenseFechar
Pense antes

Você sempre ouviu "ruptura de placa causa IAM". Mas há outras duas formas — quem se beneficia mais de stent? Quem se beneficia mais de antitrombótico?

Resposta — os 3 mecanismos da SCA (JAMA 2022, Bhatt et al.)
Ruptura de placa (~60%)
  • Placa rica em lipídeos + células inflamatórias
  • Capa fibrosa fina
  • Ruptura → trombo rico em fibrina e plaquetas
  • Causa: STEMI ou NSTEMI
Erosão de placa (~25%)
  • Superfície endotelial denudada por turbulência
  • Sem ruptura — endotélio "deslocado"
  • Trombo rico em plaquetas (não tanto fibrina)
  • STEMI ou NSTEMI
  • Mais comum em mulheres jovens, tabagistas
Nódulo calcificado (~5%)
  • Placa rica em cálcio difuso
  • Nódulo calcificado excêntrico e protruso
  • Remodelamento constritivo
  • STEMI, NSTEMI ou angina instável
  • Mais em idosos, DRC, calcificação extensa

Por que importa: a erosão pode responder melhor a tratamento conservador anti-trombótico sem stent em casos selecionados (estudos EROSION); a ruptura quase sempre precisa de stent.

03 / Lipoproteínas

ApoB — o número que importa.

? Por que dizemos hoje que ApoB é melhor marcador de risco que LDL-c? E o que isso muda na clínica? PenseFechar
Pense — a regra-chave da aterogênese

O que entra na parede arterial: é o colesterol "solto" ou são partículas inteiras? Quantas moléculas de ApoB tem cada partícula aterogênica?

Resposta — uma ApoB por partícula

Cada partícula aterogênica (LDL, VLDL, IDL, remanescentes, Lp(a)) carrega exatamente UMA molécula de ApoB. Portanto, dosar ApoB conta o número total de partículas aterogênicas no sangue.

LDL-c mede o colesterol contido nas LDL — pode subestimar o risco se as LDL forem pequenas e densas (muito numerosas mas pouco colesterol cada → LDL-c "ok" mas ApoB alto). Esse é o cenário clássico da dislipidemia diabética/metabólica.

Regra prática: partículas com ApoB e < 70 nm (LDL, VLDL, remanescentes) atravessam o endotélio e ficam presas na íntima → crescimento da placa.

O ciclo de vida de uma ApoB

1
Síntese hepática

O fígado monta uma VLDL = 1 ApoB + triglicerídeos + colesterol. Secreta no plasma.

2
Hidrólise pela LPL

Na circulação, a lipoproteína lipase (LPL) (endotelial, ativada por ApoC-II) hidrolisa os TG da VLDL → ácidos graxos vão para tecidos (uso/estoque) → partícula vira remanescente de VLDL (IDL).

3
Maturação em LDL

Mais TG removidos → partícula fica densa e rica em colesterol → vira LDL. A conversão VLDL→LDL leva ~6 h. A LDL circula em média 48 h. Assim, ~90% do tempo de vida de uma ApoB é como LDL.

4
Captação hepática via receptor LDL

LDL liga-se ao receptor de LDL no hepatócito → internalização → degradação. O receptor é reciclado para a superfície. Estatinas aumentam a expressão desse receptor.

5
O escape para a parede arterial

Qualquer ApoB-lipoproteína < 70 nm pode atravessar o endotélio. Algumas voltam pela linfa, outras ficam presas na íntima — oxidam-se, recrutam macrófagos, viram placa.

★ O alvo terapêutico em uma frase

Reduzir o número de partículas ApoB-lipoproteínas circulantes que podem ficar presas na parede arterial. Por isso "lower for longer is better": cada partícula a menos por ano significa menos chance de uma ficar presa e iniciar uma placa.

PCSK9 — o regulador do receptor de LDL

? Como funciona a PCSK9 e por que inibi-la baixa tanto o LDL? PenseFechar
Pense — o ciclo do receptor

O receptor de LDL é normalmente reciclado depois de internalizar uma LDL. Mas existe uma proteína que condena esse receptor à degradação. Quem é? E o que acontece se você bloqueá-la?

Resposta — o "marcador de destruição" do receptor

PCSK9 (proproteína convertase subtilisina/kexina tipo 9) é secretada pelo fígado e marca o receptor de LDL para degradação lisossomal após ele internalizar uma LDL. Sem PCSK9, o receptor seria reciclado de volta para a superfície e poderia capturar mais LDL.

Inibir PCSK9 (com alirocumab ou evolocumab, anticorpos monoclonais SC quinzenais; ou inclisirana, siRNA SC 2×/ano) preserva o receptor → mais receptores → mais captação de LDL → ↓ LDL-c em até 60%.

Estudos cardinais: FOURIER (evolocumab) e ODYSSEY-OUTCOMES (alirocumab) — redução ~15-20% de MACE em prevenção secundária; ORION-10/11 (inclisirana) — redução de LDL ~50% com 2 injeções/ano.

04 / Manifestações

Onde a placa fala.

A aterosclerose é sistêmica — atinge qualquer território arterial. Cada localização gera sua síndrome:

TerritórioApresentação agudaApresentação crônica
CoronáriasSCA (angina instável, IAM)Angina estável, isquemia silenciosa
Carótidas / cerebraisAVC isquêmico, AITAITs recorrentes, demência vascular
Aorta torácicaRuptura aórtica, dissecçãoAneurisma torácico
Aorta abdominalOclusão aórtica (raro)Aneurisma de aorta abdominal
Artérias renaisOclusão (raro)HAS renovascular, ↓ função renal
Artérias mesentéricasIsquemia mesentérica agudaAngina abdominal, isquemia crônica
Artérias periféricasOclusão aguda de MMIIClaudicação intermitente, isquemia crônica

⚠ Conceito importante para prova

Doença em um território = doença em vários. Paciente com DAC tem ~30-40% de prevalência de DAP, ~20% de DCBV. Por isso, em SCA, sempre rastreie carótidas e MMII; em DAP, sempre faça ECG e investigue coronárias.

05 / Síndromes Coronarianas Agudas

STEMI · NSTEMI · AI.

? Diante de um paciente com dor torácica há 2 h, o ECG é o primeiro exame. Que dado nele separa STEMI de NSTEMI e o que isso muda na conduta nas próximas 2 h? PenseFechar
Pense — fisiopatologia primeiro

STEMI = oclusão coronária total. NSTEMI = oclusão sub-total. O que aparece no ECG quando há oclusão total transmural vs. subendocárdica?

Resposta — a árvore de decisão da SCA
STEMI
  • Supra de ST ≥ 1 mm em 2 derivações contíguas (≥ 2 mm em V2-V3 ♂; ≥ 1,5 mm V2-V3 ♀)
  • Ou BRE novo com sintoma
  • Oclusão TOTAL — necrose transmural
  • Troponina sobe (geralmente alta)
  • US: hipocontratilidade segmentar
  • Conduta: reperfusão URGENTE (PCI primária < 90-120 min ou fibrinólise se PCI > 120 min)
NSTEMI
  • Sem supra de ST
  • Pode ter: infra de ST, T invertida, ou ECG normal
  • Oclusão SUB-total — necrose subendocárdica
  • Troponina ELEVADA (define vs AI)
  • US: normal ou hipocontratilidade focal
  • Conduta: estratificação de risco (GRACE) → PCI em 2-72 h
Angina Instável
  • Mesmo quadro clínico que NSTEMI
  • ECG normal ou alterações de ST-T
  • Troponina NORMAL (esse é o divisor)
  • US geralmente preservado
  • Conduta: estratificação + manejo conservador inicial

Tríade da SCA: dor torácica anginosa + ECG + troponina. Os 3 juntos definem o quadro.

? A 4ª Definição Universal de IAM (2018) classifica IAM em 5 tipos. Quais são, e qual é o mais comum? PenseFechar
Pense — IAM é só ruptura de placa?

Um paciente em sepse tem troponina alta sem ter rompido placa. Outro fez angioplastia eletiva e teve troponina pequena depois. Como classificar?

Resposta — 5 tipos universais
TipoMecanismoExemplo
1Espontâneo — ruptura/erosão de placa com tromboseO clássico — STEMI / NSTEMI por placa rompida
2Desequilíbrio oferta/consumo — sem rupturaVasoespasmo, anemia grave, taquiarritmia, hipotensão, sepse, hipoxemia
3Morte súbita com sintomas isquêmicos antes de marcadoresFV/MS antes da coleta de troponina
4aRelacionado a PCI (≤ 48 h)Dissecção, embolização distal, trombo de stent agudo
4bTrombose de stentAguda, subaguda, tardia, muito tardia
4cRe-estenose de stentHiperplasia neointimal
5Relacionado a cirurgia de revascularização (≤ 48 h)Oclusão de enxerto ou artéria nativa pós-CRM

O tipo 1 é o mais comum e o que se aprende como "IAM clássico". O tipo 2 é frequentemente esquecido mas comum em UTI/emergência — não trate como infarto típico, trate a causa (sepse, anemia, taquicardia).

Classificação de Killip — risco de óbito no IAM

ClasseCritério clínicoMortalidade
ISem sinais de IC2-3%
IIIC leve: estertores nas bases, B38-10%
IIIEdema agudo de pulmão20-25%
IVChoque cardiogênico45-70%

Killip é o preditor clínico mais simples de mortalidade no IAM. Avalie nas primeiras horas.

Troponina — cinética e armadilhas

Troponina T e I de alta sensibilidade (hs-cTn)

Padrão atual: dosar 0 h + 1 h (ou 0 h + 3 h). Investigar o delta (variação) — não basta um número isolado.

  • Sobe: começa em 3-4 h, pico 12-24 h, dura 7-14 dias (cTnI) ou 10-21 dias (cTnT)
  • Falsos positivos (troponina ↑ sem SCA): sepse, IC, miocardite, hipertrofia VE, embolia pulmonar, DRC (acúmulo), AVC, traumatismo cardíaco, exercício extremo, taquicardia
  • Falso negativo: muito precoce (< 3 h do início)
? Paciente da UTI com sepse tem troponina 0,8 ng/mL. É IAM? Tem stent? PenseFechar
Pense — o conceito de "injúria miocárdica"

Troponina ↑ significa lesão de cardiomiócito. Mas lesão ≠ infarto. O que diferencia injúria de IAM?

Resposta — IAM exige evidência clínica de isquemia

A 4ª Definição Universal de IAM separa:

  • Injúria miocárdica = troponina > percentil 99 do limite superior. Causas: sepse, hipoxemia, hipotensão, taquicardia, IC, DRC, miocardite, ablação...
  • IAM = injúria + evidência clínica de isquemia aguda (sintomas, alteração ECG nova, alteração de imagem nova, trombo angiográfico ou em autópsia).

No caso de sepse: provavelmente é injúria miocárdica tipo 2 ou simplesmente injúria. Não cateterizar de imediato; tratar sepse + considerar IAM tipo 2 se sintomas/ECG sugerirem.

06 / Tratamento da SCA

Reperfusão — tempo é músculo.

? Diante de um STEMI, o paciente está no hospital que não tem hemodinâmica. O hospital com PCI fica a 1h30 de ambulância. PCI ou fibrinólise? PenseFechar
Pense — qual a janela "real" de cada estratégia?

PCI é melhor que fibrinólise em quase tudo, exceto quando demora. Qual é o limite de tempo aceitável para o transporte? E o que fazer se passar disso?

Resposta — o "120 minutos" é a regra

Algoritmo ESC 2017/2023 para STEMI:

  1. Diagnóstico de STEMI: a partir do primeiro contato médico
  2. Se PCI primária pode ser feita em ≤ 120 min do diagnóstico → transferir para PCI (meta < 90 min em PCI-centro; < 120 min se não-PCI)
  3. Se PCI > 120 min do diagnósticofibrinólise (em até 10 min do diagnóstico), depois transferir
  4. Após fibrinólise → cinecoronariografia em 2-24 h (estratégia "fármaco-invasiva")

No caso descrito (1h30 = 90 min para chegar + ~30 min até cateterismo = ~120 min): limítrofe. Se conseguir chegar e cateterizar < 120 min, transfere. Se não → fibrinólise no hospital local.

Janela total para reperfusão: ≤ 12 h do início dos sintomas (qualquer estratégia). Entre 12-48 h: PCI só se instabilidade ou sintomas persistentes.

? Quais são as contraindicações absolutas da fibrinólise? (cai em prova quase sempre) PenseFechar
Pense — o que a fibrinólise pode causar de pior?

Você está dissolvendo todos os trombos do corpo. Onde NÃO pode haver hemorragia que NÃO se possa tratar?

Resposta — proteja o cérebro e os grandes vasos

Absolutas:

  • AVC hemorrágico em qualquer momento
  • AVC isquêmico < 6 meses
  • Trauma de SNC ou neoplasia/MAV de SNC
  • Trauma maior / cirurgia maior / TCE em últimos 3 meses
  • Sangramento ativo (não menstruação)
  • Dissecção aórtica suspeita
  • Punção não-compressível (biópsia hepática, punção lombar) nas últimas 24 h

Relativas:

  • AIT < 6 meses
  • Anticoagulação oral
  • Gestação ou parto < 1 semana
  • HAS refratária (PAS > 180 ou PAD > 110)
  • Doença hepática avançada
  • Endocardite infecciosa
  • Úlcera péptica ativa
  • RCP prolongada/traumática

Drogas: tenecteplase (TNK), alteplase (tPA) ou estreptoquinase (mais antiga, baixo custo).

Terapia antiplaquetária no STEMI/NSTEMI

Dupla antiagregação (DAPT) — pilar do tratamento

AAS (ácido acetilsalicílico) — todos os pacientes (a menos que contraindicação). Dose de ataque 150-300 mg VO (mastigar) na chegada; manutenção 75-100 mg/dia para sempre.

Inibidor P2Y12 — combinar com AAS:

  • Ticagrelor 180 mg ataque, 90 mg 12/12h — preferido em SCA, sem contraindicação ao prasugrel
  • Prasugrel 60 mg ataque, 10 mg/dia — preferido em PCI primária; contraindicado se AVC prévio ou > 75 anos
  • Clopidogrel 600 mg ataque (300 mg se fibrinólise), 75 mg/dia — quando ticagrelor/prasugrel contraindicados/indisponíveis

Duração: 12 meses (padrão), depois AAS isolado para vida. Em alto risco de sangramento: 3-6 meses. Em alto risco isquêmico/baixo risco de sangramento: estender com ticagrelor 60 mg 12/12h (PEGASUS).

Anticoagulação na PCI

Outras medidas no STEMI agudo

Fazer
  • Oxigênio SE SaO2 < 90% (não rotineiro — pode piorar se eupneico)
  • Opioide IV (morfina) se dor refratária — cuidado: ↓ absorção de antiplaquetários
  • Estatina alta intensidade precoce (atorvastatina 80 mg)
  • Betabloqueador — após estabilização hemodinâmica (não em choque)
  • IECA/BRA — primeiras 24 h se sem hipotensão
Não fazer
  • Oxigênio rotineiro em paciente eupneico (estudos AVOID, DETO2X — pode piorar desfecho)
  • AINE (exceto AAS) — aumentam risco de morte e ruptura
  • Bloqueador de canal de cálcio diidropiridínico de imediato
  • Magnésio rotineiro — sem benefício (ISIS-4)
07 / Síndrome Coronariana Crônica

Quando a placa não rompe.

? Paciente de 58 a, hipertenso, diabético, dislipidêmico, com dor torácica em aperto que aparece ao caminhar 2 quadras e melhora ao parar. Qual o exame de 1ª linha e por quê? PenseFechar
Pense — antes do exame, pondere a probabilidade pré-teste

Esse paciente tem alta probabilidade pré-teste de DAC obstrutiva (idade + sexo + FR + sintoma típico). O que isso muda na escolha do exame?

Resposta — ESC 2024: algoritmo por probabilidade clínica
Probabilidade pré-testeExame de 1ª linha
Muito baixa (≤ 5%)Adiar investigação
Baixa (> 5-15%)Reavaliar probabilidade OU CCTA (angio-TC)
Moderada (15-50%)CCTA (preferida) OU funcional (PET/SPECT, RM-cardio, eco-stress)
Alta (50-85%)Funcional (PET/SPECT, RM, eco-stress) — busca isquemia
Muito alta (> 85%)Cinecoronariografia invasiva direta

CCTA (angio-TC coronariana) é hoje o teste preferido em probabilidade baixa-moderada — anatomia + cálcio (Agatston) + identificação de placa.

No caso descrito (alta probabilidade) → funcional ou direto invasivo dependendo de gravidade dos sintomas e disponibilidade.

Pilares do tratamento da SCC (ESC 2024)

Resumo prático em 4 pilares:

1. Antitrombótico
  • AAS 75-100 mg/dia vitalício (após IAM/PCI)
  • Alternativa: clopidogrel 75 mg (não inferior ao AAS — Class I em SCC)
  • Em alto risco isquêmico + baixo risco sangramento: AAS + rivaroxaban 2,5 mg 12/12h (COMPASS) OU AAS + ticagrelor 60 mg 12/12h
2. Hipolipemiante
  • Estatina alta intensidade (atorva 40-80, rosuva 20-40)
  • Meta LDL < 55 mg/dL e ↓ ≥ 50% do basal
  • Se não atingir: + ezetimibe
  • Se ainda não atingir: + inibidor PCSK9 (alirocumab/evolocumab) ou inclisirana
  • Ácido bempedóico se intolerância a estatina (CLEAR Outcomes 2023)
3. Bloqueio neuro-hormonal
  • IECA/BRA em HAS, DM, IC, doença renal crônica, FE reduzida — Class I
  • Betabloqueador se IC com FE < 40% (carvedilol, bisoprolol, metoprolol succinato)
  • Sacubitril/valsartan em IC pós-IAM (PARADIGM)
4. Cardiometabólico
  • iSGLT2 em DM2 + DCV (dapa, empa) — Class I
  • Agonista GLP-1 em DM2 + DCV (sema, lira, dula) ou em obesidade sem DM (semaglutide — SELECT)
  • Colchicina 0,5 mg/dia em DAC estabelecida (LoDoCo2, COLCOT) — anti-inflamatório Class IIa
  • Cessação tabagismo, dieta mediterrânea, exercício 150-300 min/sem moderado

⚠ Pegadinha de prova: "MACE" — o que significa?

MACE = Major Adverse Cardiovascular Events — composto de: morte cardiovascular + IAM não-fatal + AVC não-fatal (3 componentes; alguns trials adicionam hospitalização por angina instável ou revascularização). É o desfecho primário da maioria dos trials cardiovasculares.

08 / Dislipidemia

Quanto mais baixo, melhor. Quanto mais cedo, muito melhor.

? A meta de LDL é diferente conforme o risco. Como você define o risco do paciente e qual a meta para cada estrato? PenseFechar
Pense — antes de pedir o lipidograma, classifique o paciente

Quem é "muito alto risco"? Quem é "baixo risco"? E para cada um, quanto o LDL precisa baixar?

Resposta — diretrizes ESC/EAS 2019 (vigentes)
Categoria de riscoQuem éMeta LDL
BaixoSCORE2 < 1% a 10 anos< 116 mg/dL
ModeradoSCORE2 1-5%< 100 mg/dL
AltoSCORE2 5-10%; DM > 10 a sem lesão; HAS estágio 3; DRC moderada< 70 mg/dL + ↓ ≥ 50%
Muito altoDCV documentada (clínica ou imagem); DM com lesão de órgão; SCORE2 > 10%; DRC grave; HF com 1 fator agravante< 55 mg/dL + ↓ ≥ 50%
Extremo2º evento aterotrombótico em 2 anos sob estatina máxima tolerada< 40 mg/dL (considerar)

Para a prova: decore os números das categorias alto (< 70) e muito alto (< 55). São as mais cobradas.

Classificação laboratorial das dislipidemias

Hipercolesterolemia isolada
  • LDL-c ≥ 130 mg/dL
  • TG normal
Hipertrigliceridemia isolada
  • TG ≥ 150 mg/dL
  • LDL-c normal
Hiperlipidemia mista
  • LDL-c ≥ 130
  • TG ≥ 150
HDL-c baixo
  • ♂ < 40 mg/dL
  • ♀ < 50 mg/dL

★ Hipercolesterolemia Familiar (HF)

Prevalência 1:200-250. LDL muito alto (> 190 mg/dL adulto, > 160 criança), HF de DAC precoce, xantomas tendinosos, arco corneano antes dos 45 anos.

Causa principal: mutação no receptor de LDL (LDLR). Outras: ApoB, PCSK9 (ganho de função).

Diagnóstico: critérios de Dutch Lipid Clinic Network ou Simon Broome. Tratamento: estatina precoce desde a infância (10 anos), associada a ezetimibe/PCSK9. Rastreio em cascata da família.

Causas secundárias — sempre descartar antes de tratar

  • Hipotireoidismo → CT ↑, TG ↑ (sempre pedir TSH antes de iniciar estatina)
  • Diabetes mellitus → TG ↑, HDL ↓, LDL pequena e densa
  • Síndrome nefrótica → CT ↑, TG ↑
  • Doença renal crônica → CT ↑
  • Hepatopatia colestática → CT ↑
  • Obesidade → CT ↑, TG ↑, HDL ↓
  • Álcool → TG ↑
  • Fármacos: corticosteroides, retinoides, antirretrovirais, betabloqueador, tiazídico, ciclosporina
  • Síndrome de Cushing, hipopituitarismo

Lp(a) — o vilão emergente

? Por que a Lp(a) é um fator de risco "diferente" e não responde a estatina? PenseFechar
Pense — o que é a Lp(a)?

É uma LDL com algo a mais — a apolipoproteína(a). Esse "a" muda a metabolização? E por que é tão genética?

Resposta

Lp(a) = LDL + apo(a). A apo(a) é ligada à ApoB-100 da LDL por uma ponte dissulfeto. Tem alta homologia com o plasminogênio → efeito pró-trombótico (compete com plasminogênio) e pró-inflamatório/pró-aterogênico.

Determinada quase 100% por genética (locus do gene LPA). Estatinas não reduzem Lp(a) — algumas podem até aumentá-la 10%. Dosagem é "uma vez na vida".

Valor de risco: > 50 mg/dL (ou > 125 nmol/L). 20-25% da população mundial tem Lp(a) elevada.

Tratamentos que reduzem Lp(a):

  • Inibidores PCSK9 (alirocumab, evolocumab) — ↓ 20-30%
  • Inclisirana — ↓ 25%
  • Pelacarsen (ASO, em fase 3 — HORIZON trial)
  • Muvalaplin (oral, fase 2 promissora — JAMA 2024) — ↓ até 85%
  • Niacina, aférese de LDL (casos extremos)

Slider interativo — onde está o seu LDL?

Mapa clínico · interativo
Arraste o LDL-c
100 mg/dL
205570100130190250

Calculadora — quanto baixaria com cada terapia?

Calculadora · redução esperada de LDL
Combine terapias e veja o LDL final
LDL final estimado
Atinge meta?

Estatinas — classificação por intensidade

Alta intensidade (↓ LDL ≥ 50%)Moderada intensidade (↓ LDL 30-49%)
Atorvastatina 40-80 mg
Rosuvastatina 20-40 mg
Atorvastatina 10-20 mg
Rosuvastatina 5-10 mg
Sinvastatina 20-40 mg
Pravastatina 40-80 mg
Lovastatina 40 mg
Fluvastatina 80 mg
Pitavastatina 1-4 mg

★ Efeitos adversos das estatinas — verdade e mito

  • Mialgia / SAMS (sintomas musculares associados a estatina) — prevalência real ~5%, mas relatada em 30% (efeito nocebo). Use ferramentas como SLCO1B1 genotipagem em casos refratários.
  • Rabdomiólise grave — < 1:10.000 paciente-anos. CPK > 10× LSN + sintomas + mioglobinúria.
  • ↑ transaminases — 1% (dose-dependente, raramente clinicamente relevante). Não suspender por alteração < 3× LSN sem sintoma.
  • ↑ glicemia / risco de DM2 — pequeno (NNH ≈ 250), mas benefício CV supera.
  • NÃO causa demência, NÃO causa câncer (revisões sistemáticas grandes).

Conduta na mialgia: verificar CPK + função renal + função tireoidiana. Pausar 2-4 semanas → tentar reintrodução com mesma ou outra estatina em dose menor. Se persistir: estratégias "every-other-day", troca para rosuvastatina baixa, ou substituir por ezetimibe/PCSK9/bempedóico.

Para além das estatinas

Ezetimibe
  • Inibe NPC1L1 no enterócito → ↓ absorção colesterol
  • ↓ LDL 18-22%
  • IMPROVE-IT: redução de MACE em adição à sinvastatina pós-SCA
  • 1ª linha após estatina máx. tolerada
Inibidores PCSK9
  • Alirocumab 75-150 mg SC 2/2 sem
  • Evolocumab 140 mg SC 2/2 sem ou 420 mg/mês
  • ↓ LDL ~60%
  • FOURIER, ODYSSEY OUTCOMES → ↓ MACE
  • Custo alto, reservado para muito alto risco
Inclisirana
  • siRNA que silencia mRNA da PCSK9
  • 284 mg SC dia 1, dia 90 e depois cada 6 meses
  • ↓ LDL ~50%
  • ORION-10/11: redução sustentada
  • Adesão excelente (2 doses/ano)
Ácido bempedóico
  • Inibe ATP-citrato liase (acima de HMG-CoA redutase)
  • Pró-fármaco — ativado só no fígado (não músculo)
  • ↓ LDL 18-25%
  • CLEAR Outcomes 2023: redução de MACE em intolerantes a estatina
  • Boa opção para SAMS
Outros
  • Icosapent ethyl (REDUCE-IT) — EPA puro, alta dose, em hipertrigliceridemia + alto risco
  • Fenofibrato/bezafibrato — TG > 200 com LDL no alvo
  • Resinas (colestiramina) — quase em desuso
09 / Revascularização

PCI ou CRM?

? Paciente diabético, com doença trivascular e SYNTAX score 28. PCI ou CRM? PenseFechar
Pense — o que é o SYNTAX score?

SYNTAX score quantifica a complexidade anatômica das lesões coronárias (0-22 baixo, 23-32 intermediário, ≥ 33 alto). Combinado com DM, muda muito a decisão entre PCI e CRM.

Resposta — ESC 2018: DM + multivaso = CRM preferível
CenárioPCICRM
Uni-vaso sem proximal DAClass IClass IIb
Uni-vaso com proximal DAClass I AClass I A
Tronco SYNTAX 0-22Class I AClass I A
Tronco SYNTAX 23-32Class IIa AClass I A
Tronco SYNTAX ≥ 33Class III BClass I A
Trivascular SYNTAX 0-22 sem DMClass I AClass I A
Trivascular SYNTAX > 22 sem DMClass III AClass I A
Trivascular com DM (qualquer SYNTAX)Class IIb-IIIClass I A

No caso (DM + trivascular SYNTAX 28): CRM é a escolha (FREEDOM, BEST trials — sobrevida superior em diabéticos).

Fatores que pesam a favor de CRM: DM, FE ≤ 35%, complexidade anatômica alta, calcificação extensa.

Fatores a favor de PCI: idoso frágil, comorbidades graves, anatomia complexa para enxerto, próxima cirurgia abdominal, paciente recusa cirurgia.

Anatomia da CRM moderna

  • Artéria mamária interna esquerda (LIMA) para descendente anterior (DA) — patência ~95% em 10 anos
  • Veia safena magna — patência ~80% em 5 anos
  • Artéria radial — opção quando mamária ocupada ou enxerto adicional
  • CRM com múltiplos enxertos arteriais tem melhor sobrevida em longo prazo
10 / Prevenção secundária

O paciente pós-IAM não pode sair sem isso.

Imagine um paciente que sobreviveu a um STEMI e está recebendo alta. Quais drogas/condutas todas devem estar no resumo de alta?

IntervençãoRecomendaçãoPor quê
AAS 100 mg/diaVitalício↓ 31% MACE (prev. secundária)
Inibidor P2Y12 (ticagrelor 90 mg 12/12h ou prasugrel 10 mg/dia)12 mesesDAPT — reduz trombose de stent e re-IAM. Pode estender se alto risco isquêmico e baixo de sangramento
Estatina alta intensidade (atorva 40-80 / rosuva 20-40)Vitalício, meta LDL < 55↓ 22% MACE; estabiliza placa
Betabloqueador (carvedilol, metoprolol succinato, bisoprolol)Especialmente se FE < 40%↓ remodelamento, ↓ arritmia, ↓ morte
IECA ou BRASe FE < 40%, HAS, DM, DRC↓ remodelamento ventricular
Antagonista mineralocorticoide (espironolactona, eplerenona)Se FE < 40% + DM ou ICEPHESUS — ↓ mortalidade pós-IAM com IC
iSGLT2 (dapa, empa)Em DM2 + DCV; em IC com FE preservada ou reduzidaEMPA-REG, DAPA-HF, DAPA-CKD — ↓ MACE, IC, DRC
Colchicina 0,5 mg/diaConsiderar em DAC estabelecidaLoDoCo2, COLCOT — ↓ 25% MACE
Cessação tabagismoSempreReduz risco em 30-50% em 2 anos
Reabilitação cardíacaPrograma estruturado↓ mortalidade ~20-30%
Vacinação influenza/COVID/pneumococoAnual / conforme calendário↓ eventos CV após infecções respiratórias

★ A redução cumulativa de risco com terapia completa

Cada droga, isolada, reduz ~15-25% do risco. Mas combinadas têm efeito multiplicativo:

  • Sem tratamento: 8% eventos/ano
  • + AAS: 6% (RRR 18%)
  • + AAS + BB: 4,5%
  • + AAS + BB + estatina: 3% (RRR cumulativa 60%)
  • + AAS + BB + estatina + IECA: 2,3% (RRR cumulativa 70%)

Yusuf, Lancet 2002 — A polipílula pode reduzir o risco de eventos cardiovasculares em mais de 70%.

11 / Socrático profundo

As perguntas que caem na prova.

10 perguntas-armadilha. Tente formular sua resposta antes de abrir cada uma.

? Por que oxigênio rotineiro no IAM pode piorar o desfecho em paciente eupneico? PenseFechar
Pense — qual o efeito do oxigênio supra-fisiológico no leito coronário?

Sob hiperóxia, o que acontece com o tônus arteriolar coronário? E com a quantidade de espécies reativas de oxigênio?

Resposta

Hiperóxia (PaO2 > 100) causa:

  • Vasoconstrição coronária paradoxal (mecanismo direto sobre o músculo liso)
  • espécies reativas de oxigênio → lesão de reperfusão
  • Não há benefício mensurável em pacientes não-hipoxêmicos

Estudos AVOID (2015) e DETO2X-AMI (2017, NEJM) → oxigênio rotineiro não reduz mortalidade e pode aumentar tamanho do infarto. Indicação atual: só se SaO2 < 90%. Class III A (não recomendado) se SaO2 > 90%.

? Mulher de 35 anos, sem FR, com IAM e coronárias normais à cateterização. Diagnóstico? PenseFechar
Pense — sigla "MINOCA"

IAM sem obstrução coronária angiográfica significativa (< 50%). Causas?

Resposta — MINOCA: 5-10% dos IAMs

MINOCA (Myocardial Infarction with Non-Obstructive Coronary Arteries). Causas principais:

  • Erosão de placa com trombo lisado (mulheres jovens, tabagismo)
  • Dissecção coronária espontânea (SCAD) — mulher jovem, periparto, doenças do tecido conjuntivo
  • Vasoespasmo coronário (Prinzmetal) — cocaína, hiperventilação
  • Disfunção microvascular
  • Embolia coronária (FA, válvula mecânica, endocardite, trombo VE)
  • Síndrome de Takotsubo (cardiomiopatia de estresse)
  • Miocardite (DDx — pode mimetizar)

Investigação: RM cardíaca (gold standard para diferenciar), IVUS/OCT, testes provocativos para vasoespasmo.

? Paciente com STEMI inferior + bradiarritmia + hipotensão. Quais coronárias provavelmente estão envolvidas e o que cuidar? PenseFechar
Pense — território + sintomas

Parede inferior é irrigada pela coronária direita (ou circunflexa em 10% — dominância esquerda). Quem irriga o nó AV? Quem irriga o VD?

Resposta — IAM inferior + VD

STEMI inferior (DII, DIII, aVF) sugere oclusão da coronária direita:

  • Irriga o nó AV em ~90% → BAV de 2º/3º grau pode ocorrer (geralmente reversível, supra-Hisiano, escape adequado)
  • Irriga o VD → IAM de VD em ~30-50% dos IAMs inferiores → pedir V3R-V4R direitos! → tratamento muda: pré-carga dependente, evitar nitrato e diurético, repor volume agressivamente, considerar dopamina se hipotenso
  • BAV pode precisar marcapasso transcutâneo/transvenoso temporário se sintomático

Não esquecer: hipotensão + IAM inferior = pensar em VD antes de pensar em choque cardiogênico de VE.

? Por que o paciente que toma clopidogrel com omeprazol pode ter resposta antiplaquetária reduzida? PenseFechar
Pense — como o clopidogrel é ativado?

Clopidogrel é pró-fármaco. Para virar metabólito ativo, precisa de uma enzima hepática específica. Quem inibe essa enzima?

Resposta — interação CYP2C19

Clopidogrel é ativado pela CYP2C19 hepática. Omeprazol e esomeprazol são inibidores potentes da CYP2C19 → ↓ metabólito ativo → ↓ efeito antiplaquetário (risco potencial de trombose de stent).

Manejo: prefira pantoprazol ou rabeprazol (menos efeito na CYP2C19) quando IBP é necessário. Em pacientes com perfil de CYP2C19 "pobre metabolizador" (genótipo *2/*2, *3/*3), considerar troca para ticagrelor ou prasugrel (não dependem de CYP2C19).

? Por que estatina reduz risco CV mesmo em paciente com LDL "normal"? PenseFechar
Pense — efeitos pleiotrópicos

Estatinas reduzem LDL — mas só isso?

Resposta — efeitos pleiotrópicos

Além de ↓ LDL, estatinas têm efeitos "pleiotrópicos":

  • Anti-inflamatórios — ↓ PCR-us (JUPITER trial: rosuvastatina em pacientes com LDL normal mas PCR alto → ↓ MACE 44%)
  • Estabilização de placa — espessamento da capa fibrosa, redução do core lipídico
  • Restaura função endotelial — ↑ NO, ↓ disfunção
  • Antitrombóticas — ↓ agregação plaquetária, ↓ fator tecidual
  • Antioxidantes — ↓ produção de espécies reativas

Por isso, em SCA, iniciar estatina alta intensidade antes de saber o lipidograma é justificado — efeito de placa estabilização imediato.

? Para quê serve o SCORE2? E o que muda nele vs. o SCORE antigo? PenseFechar
Pense — qual é o objetivo de um escore de risco?

Predizer o risco a 10 anos de qual desfecho? E para quem?

Resposta — SCORE2 (2021) substitui o SCORE original

SCORE2 (ESC 2021) estima o risco a 10 anos de eventos CV fatais E não-fatais (antes só fatais) em pessoas 40-69 anos aparentemente sem doença. Para > 70 anos: SCORE2-OP (Older Persons).

Variáveis: idade, sexo, fumo, PAS, colesterol total e HDL. Estratificado por região (baixo, moderado, alto, muito alto risco).

Categorias (40-49 anos): < 2,5% baixo; 2,5-7,5% alto; ≥ 7,5% muito alto (para o Brasil, classificado como "moderado risco").

Não usar em: pacientes já com DCV documentada, DM2, DRC, HF — esses já são "alto" ou "muito alto" automaticamente.

? Paciente com IAM sem supra, troponina ascendente, dor recorrente, instabilidade hemodinâmica. Quando cateterizar? PenseFechar
Pense — estratificação de risco no NSTEMI/AI

NSTEMI tem janela mais flexível que STEMI. Mas certos sinais antecipam a indicação. Quais?

Resposta — 4 estratos (ESC 2023)
RiscoCritériosTempo até cinecoronariografia
Muito altoInstabilidade hemodinâmica, choque, arritmia ventricular, IC aguda, dor persistente, complicação mecânica, mudanças ST dinâmicas< 2 h (imediata)
AltoTroponina elevada compatível com IAM, mudanças dinâmicas de ST/T, GRACE > 140< 24 h
IntermediárioGRACE 109-140, DM, DRC, IAM prévio, PCI/CRM prévia, FE ≤ 40%, IC, angina pós-IAM precoce< 72 h
BaixoNenhum dos critérios acimaEstratificação não-invasiva primeiro

O paciente descrito (recorrência + instabilidade) é muito alto risco → cateterismo imediato, similar ao STEMI.

? Por que icosapent ethyl (REDUCE-IT) funcionou em hipertrigliceridemia + DCV, mas óleo de peixe de farmácia não? PenseFechar
Pense — composição importa

Óleo de peixe tradicional tem EPA + DHA. Icosapent é EPA puro em dose alta. Isso muda alguma coisa?

Resposta — EPA puro + dose alta

Icosapent ethyl (REDUCE-IT, NEJM 2019) — 4 g/dia de EPA puro em pacientes com TG 150-499 + LDL controlado + DCV estabelecida ou DM com FR → ↓ 25% MACE em 5 anos.

Mecanismo: anti-inflamatório, estabilizador de membrana, antitrombótico — não só ↓ TG.

Suplementos comerciais com EPA + DHA em doses baixas (1-2 g) não mostraram benefício em meta-análises (estudos VITAL, STRENGTH, ASCEND).

Cuidado: em REDUCE-IT houve ↑ de FA (5,3% vs 3,9%) e leve ↑ de sangramento — selecionar bem.

? Por que nitrato é contraindicado em IAM de VD e em quem usa sildenafil? PenseFechar
Pense — mecanismo do nitrato

Nitrato libera NO → vasodilatação. Onde? E o que acontece com pré-carga?

Resposta — venodilatação reduz pré-carga

Nitrato é predominantemente venodilatador → ↓ retorno venoso → ↓ pré-carga.

No IAM de VD, o VD está disfuncional e pré-carga dependente — reduzir pré-carga colapsa o débito → hipotensão grave.

Com sildenafil/tadalafil (inibidores PDE5), o efeito vasodilatador é sinérgico → hipotensão refratária com risco de morte. Esperar 24 h (sildenafil) ou 48 h (tadalafil) após última dose.

? Qual é o conceito de "the lower for longer is better" aplicado a LDL? E o que sugere para iniciar tratamento jovem? PenseFechar
Pense — "carga cumulativa" de LDL

O risco de DAC depende da exposição ao LDL × tempo (anos × mg/dL). Como isso muda a estratégia?

Resposta — Cholesterol-years

Conceito introduzido por Braunwald (2022): o risco de evento CV é proporcional à integral LDL × idade ("LDL-gram-anos"). Limiar para DAC ≈ 7 LDL gram-anos.

Implicações:

  • Pessoa com HF heterozigótica não-tratada atinge esse limiar aos ~35 anos
  • Pessoa "normal" não-tratada → aos ~55 anos
  • Iniciar estatina aos 30 anos reduz risco MACE em 0,48 (Hazard ratio vs cuidado usual)
  • Iniciar aos 40 → HR 0,54; aos 50 → 0,63; aos 60 → 0,73

Mensagem: quanto mais cedo melhor, quanto mais baixo melhor, quanto mais tempo melhor. A randomização mendeliana (variantes genéticas de LDL baixo desde o nascimento) sugere benefício 3× maior do que ECRs de adultos — porque a exposição cumulativa é o que mata.

12 / Quiz

Aplique. Decida.

Dez questões com discussão completa de cada alternativa. Clique para revelar.

Caso · 01
Homem 58 a, dor torácica há 1 h em aperto retroesternal, sudorese, dispneia. PA 130/80, FC 95. ECG: supra de ST 3 mm em DII, DIII, aVF. Troponina ainda não disponível. Conduta?
Caso · 02
Paciente 60 a, com SCA há 4 dias (NSTEMI), em uso de AAS + clopidogrel + estatina + heparina + IECA. Hoje refere dor torácica de novo. ECG sem alterações novas. Troponina aumentando. PA 80/50, FC 110, B3+, estertores bibasais. Conduta imediata?
Caso · 03
Paciente 52 a, IAM há 2 meses, em uso de AAS + ticagrelor + atorvastatina 40 + losartana + carvedilol. Lipidograma atual: CT 180, LDL 95, HDL 40, TG 140. Conduta?
Caso · 04
Mulher 32 a, gestante de 28 semanas, com IAM (STEMI inferior). Coronariografia mostra dissecção espontânea da coronária direita. Conduta?
Caso · 05
Paciente 65 a, DAC trivascular, DM2, FE 30%, SYNTAX 32. Recomendação de revascularização?
Caso · 06
Mulher 70 a, HAS, DM, DRC estágio 4 (TFG 25), dispneia aos esforços, dor torácica atípica. ECG: alterações inespecíficas. Probabilidade pré-teste de DAC: 65%. Exame de 1ª linha?
Caso · 07
Paciente 55 a, IAM prévio, em uso de atorvastatina 80 + ezetimibe. LDL atual 78 mg/dL, sem efeitos adversos. Próximo passo?
Caso · 08
Paciente pós-IAM em DAPT (AAS + ticagrelor) há 10 meses, com PCI em DA. Refere sangramento gengival diário, hematomas espontâneos, episódio de hematêmese leve. Hb caiu de 14 para 11. Conduta?
Caso · 09
Mulher 25 a, sem comorbidades, IMC 22, com dor torácica de aperto em uso de cocaína recreativa. ECG: supra de ST anterior. Conduta?
Caso · 10
Paciente 50 a, sem DCV, com Lp(a) 80 mg/dL, LDL 130 mg/dL, sem outros FR. SCORE2 calculado: 4% a 10 anos. Conduta para Lp(a)?
13 / Framework

Os 6 passos diante de qualquer paciente.

Estes são os passos mentais que você deve percorrer em qualquer paciente com suspeita ou diagnóstico de DCV aterosclerótica.

1
Passo 1
Caracterize a dor (ou ausência dela)
Anginosa típica = (1) localização retroesternal, (2) precipitada por esforço/estresse, (3) alivia com repouso/nitrato. Todos os 3 = típica. 2 = atípica. 0-1 = não cardíaca. Atenção: mulheres, idosos e diabéticos frequentemente apresentam dor atípica ou equivalentes (dispneia, fadiga). Pergunte sobre equivalentes anginosos.
2
Passo 2
ECG + troponina (em qualquer dor torácica)
ECG nos primeiros 10 minutos. Se supra de ST → STEMI, ativa protocolo. Se sem supra → seguir com troponina (0 h + 1 h ou 3 h). Compare ECG com prévios. Lembre dos infartos com BRE novo. Sempre faça V3R-V4R em IAM inferior e V7-V8-V9 em suspeita de posterior.
3
Passo 3
Classifique: STEMI, NSTEMI, AI ou diagnóstico diferencial?
Use a tríade clínica + ECG + troponina. Sempre considere DDx: dissecção aórtica (dor "rasgando", PA assimétrica), embolia pulmonar (dispneia + D-dímero), pericardite (atrito + ST difuso côncavo), pneumotórax, refluxo, costocondrite. Em mulher jovem: SCAD, Takotsubo, miocardite.
4
Passo 4
Estratifique e decida a estratégia de reperfusão / invasão
STEMI → PCI < 90-120 min (transferência aceitável até 120 min) OU fibrinólise. NSTEMI → use os critérios de risco (muito alto < 2 h; alto < 24 h; intermediário < 72 h; baixo: não-invasivo). Aplique Killip + GRACE para mortalidade. Calcule risco de sangramento (CRUSADE).
5
Passo 5
Inicie a "polipílula" baseada em evidência
AAS + inibidor P2Y12 + estatina alta intensidade + betabloqueador + IECA/BRA. Adicione iSGLT2/GLP-1 se DM2 + DCV. Considere colchicina 0,5 mg/dia. Em FE < 40% pós-IAM com DM ou IC: antagonista mineralocorticoide. Programe alta com reabilitação cardíaca.
6
Passo 6
Prevenção secundária à perfeição — para a vida
Meta LDL < 55 mg/dL com redução ≥ 50% basal. Controle de PA (alvo < 130/80 se tolerado). HbA1c < 7% (individualizado). Cessação total de tabagismo. Atividade física 150-300 min/sem moderada. Dieta mediterrânea. Vacinação anual. Adesão: simplificar regime, polipílula combinada, educação contínua, rastreio familiar (HF, Lp(a)).
14 / Resumo

Para guardar. Para sempre.

01

9 fatores explicam 90%

INTERHEART: dislipidemia, tabagismo, DM, HAS, obesidade, estresse, sedentarismo, baixa ingestão de frutas/vegetais — explicam 90% do risco de IAM no mundo. Prevenção funciona.

02

ApoB é o substrato

Cada partícula aterogênica carrega 1 ApoB. Partículas < 70 nm atravessam o endotélio e podem ficar presas. O alvo terapêutico é reduzir o número de partículas ApoB.

03

Aterosclerose é inflamatória

"Doença inflamatória crônica imunomediada induzida pelo colesterol". Tratamento ataca ambos os pilares: lipídeo e inflamação (colchicina).

04

3 mecanismos de SCA

Ruptura (60%) > erosão (25%) > nódulo calcificado (5%). Conhecer isso ajuda a entender exceções (mulher jovem fumante = erosão).

05

STEMI: time is muscle

PCI < 90-120 min de diagnóstico OU fibrinólise < 12 h. Nunca espere troponina para confirmar STEMI — o ECG diz tudo.

06

NSTEMI: estratifique

Muito alto risco (instabilidade) → < 2 h. Alto (troponina ↑, ST dinâmico) → < 24 h. Intermediário → < 72 h. Baixo → não-invasivo primeiro.

07

Killip prevê morte

I = 2-3%; II = 8-10%; III = 20-25%; IV (choque) = 45-70%. Avalie já na admissão.

08

Meta LDL < 55 em muito alto risco

Estatina alta intensidade → + ezetimibe → + PCSK9 / inclisirana / bempedóico. Lower, earlier, longer is better.

09

O sextet pós-IAM

AAS + P2Y12 (12 m) + estatina + BB + IECA + iSGLT2/GLP-1 (se DM). Adicione colchicina em DAC estabelecida. Reabilitação cardíaca obrigatória.

10

O cérebro, o rim, a perna

DAC = doença sistêmica. Quem tem coronariopatia tem 30-40% de chance de DAP, 20% de DCBV. Rastreie sempre.

11

O paciente atípico

Mulher jovem, periparto, sem FR, com IAM = pense em SCAD, MINOCA, Takotsubo, cocaína, vasculite. Não trate como SCA clássica.

12

Estatina ≠ baixa Lp(a)

Lp(a) é genética, não muda com estatina. PCSK9, inclisirana e drogas em fase 3 (pelacarsen, muvalaplin) são os únicos que reduzem.